Como Elaborar um Fluxo de Caixa – Passo a Passo (Método Indireto)

A Demonstração de Fluxos de Caixa (DFC) é um dos relatórios mais importantes da contabilidade, pois mostra a movimentação real de dinheiro dentro da empresa. Enquanto a demonstração de resultados (DRE) apura lucros considerando competências, o fluxo de caixa revela quanto dinheiro entrou e saiu efetivamente, permitindo ao gestor analisar liquidez, capacidade de pagamento e saúde financeira.
O modelo apresentado é o Fluxo de Caixa pelo Método Indireto, largamente utilizado por empresas em Angola e internacionalmente. Ele parte do resultado líquido e faz ajustes para se chegar ao valor real de caixa gerado pelas operações.
A seguir, explicamos cada grupo de rubricas e de onde vêm as informações necessárias para o preenchimento.
1. Fluxo de Caixa das Atividades Operacionais
São os fluxos relacionados ao funcionamento normal da empresa: vendas, compras, pagamento de fornecedores, salários, impostos, etc.
O método indireto começa com:
(1) Resultado líquido antes dos impostos e rubricas extraordinárias
Este valor vem da Demonstração de Resultados (DRE), geralmente na linha do resultado operacional antes dos impostos.
Ele não representa um valor em dinheiro, pois inclui receitas ainda não recebidas e despesas ainda não pagas. Por isso, os ajustes são necessários.
2. Ajustamentos
Aqui corrigimos tudo aquilo que afetou o lucro mas não representa movimentação de caixa.
(a) Depreciações
O que é: desgaste dos ativos (máquinas, veículos, equipamentos).
De onde vem: mapa de imobilizado ou balancete (conta de despesas de depreciação).
Por que ajustar: diminui o lucro, mas não sai dinheiro.
(b) Amortizações
O que é: redução do valor de ativos intangíveis (software, licenças, patentes).
De onde vem: razão geral ou balancete, conta "Amortizações".
Por que ajustar: também não implica saída de caixa.
(c) Ganhos na alienação de imobilizações
O que é: lucro obtido ao vender um ativo fixo acima do seu valor líquido contabilístico.
De onde vem: mapa de imobilizado e registos de vendas de ativos.
Ajuste: subtrai-se, pois esse ganho aumenta o lucro mas não é uma operação do dia a dia.
(d) Perdas na alienação de imobilizações
O que é: perda na venda de um ativo.
Ajuste: adiciona-se, pois diminui o lucro sem representar saída operacional.
(e) Resultados financeiros
Inclui: juros, variações cambiais, ganhos financeiros.
Por que ajustar: não fazem parte da operação principal.
(f) Resultados extraordinários
Inclui: eventos não recorrentes (acidentes, sinistros, compensações).
Ajuste: removidos para apurar apenas o fluxo típico do negócio.
3. Resultados Operacionais Antes das Alterações do Capital Circulante
Após ajustar o lucro, chegamos a um valor que ainda não é caixa.
Agora ajustamos variações das contas correntes (ativo e passivo circulante).
4. Alterações no Capital Circulante
Aqui estão as contas diretamente ligadas ao dia a dia. Elas vêm do balanço patrimonial comparando dois períodos (ex.: 2023 e 2022).
(a) Aumento das existências (estoques)
Interpretação: se o estoque aumentou, a empresa comprou mais, gastando dinheiro.
Ajuste: subtrai-se.
(b) Diminuição das existências
Significa que o estoque reduziu, liberando caixa.
Ajuste: adiciona-se.
(c) Aumento de dívidas de terceiros – Operações correntes
Inclui clientes (contas a receber) ou outras dívidas a receber.
Se os clientes devem mais, significa que a empresa vendeu mas ainda não recebeu → consumo de caixa.
Ajuste: subtração.
(d) Diminuição de dívidas de terceiros – Operações correntes
Clientes pagaram → entrou dinheiro.
Ajuste: adicionar.
(e) Aumento de dívidas de outros ativos correntes
Mesma lógica: aumento de valores a receber → menos caixa.
(f) Aumento de dívidas a terceiros – operações correntes
Inclui fornecedores.
Quando aumenta, quer dizer que a empresa comprou mas ainda não pagou → preservou caixa.
Ajuste: adicionar.
(g) Diminuição das dívidas de terceiros – operações correntes
Pagou fornecedores → saída de caixa.
Ajuste: subtrair.
(h) Aumento de dívidas de outros passivos correntes
Inclui salários a pagar, impostos a pagar, provisões correntes.
Aumento significa que ainda não pagou → mais caixa retido.
(i) Diminuição de outros passivos correntes
Pagou as obrigações → saída de caixa → ajustar negativamente.
Após todos os ajustes, chegamos ao valor:
5. Caixa Gerado pelas Atividades Operacionais
Este é o dinheiro que o negócio gerou no período excluindo investimentos e financiamentos.
Depois subtrai-se:
Juros pagos
Vêm do diário ou razão da conta “Juros pagos”.
Impostos sobre lucros pagos
Valor efetivamente pago de IRT, IAC ou outros impostos sobre resultados.
O resultado é:
6. Fluxo de caixa das atividades operacionais
É o principal indicador da capacidade da empresa de financiar as próprias operações.
7. Fluxo de Caixa das Atividades de Investimento
Inclui compras e vendas de ativos de longo prazo.
Entradas de caixa:
Venda de imobilizado
Receita de investimentos em instrumentos financeiros
Saídas de caixa:
Compra de máquinas, equipamentos e veículos
Compra de software e intangíveis
Investimentos de longo prazo
As informações vêm dos registros de imobilizado e razão das contas de investimento.
8. Fluxo de Caixa das Atividades de Financiamento
Refere-se a empréstimos, financiamentos e transações com os sócios.
Entradas:
Capital próprio injetado pelos sócios
Empréstimos bancários obtidos
Saídas:
Pagamento de empréstimos
Distribuição de dividendos
Reembolso de capital aos sócios
Os dados vêm do balanço, contas de capital próprio e contas de empréstimos.
9. Variação Líquida de Caixa
Soma dos três fluxos:
Operacionais
Investimento
Financiamento
O resultado explica por que o saldo de caixa aumentou ou diminuiu.
10. Caixa no Início e no Fim do Período
Vêm diretamente das contas de caixa e bancos no balanço.
Conclusão
A Demonstração de Fluxos de Caixa é fundamental para qualquer empresa, permitindo:
Avaliar a capacidade de pagar contas e investir
Controlar a liquidez
Analisar o desempenho operacional real
Aumentar credibilidade junto a bancos e investidores
O segredo para preencher corretamente está em:
Comparar balanços consecutivos
Utilizar o resultado da DRE
Ajustar elementos não monetários
Corrigir as variações do capital circulante
Separar atividades operacionais, de investimento e de financiamento
Com este passo a passo, você consegue preencher corretamente qualquer fluxo de caixa no modelo apresentado, garantindo clareza e rigor financeiro na gestão da sua empresa.
